O britânico Supa Chantschool, de 35 anos, descobriu que tinha hepatite B aos 8 anos, durante exames realizados antes de uma viagem em família. Morador de Londres, ele havia contraído o vírus da mãe durante o nascimento, mas passou toda a infância sem apresentar sintomas. Em entrevista ao jornal britânico Metro, Supa contou como o diagnóstico afetou sua adolescência, os desafios enfrentados ao longo dos anos e a decisão de criar uma instituição para apoiar outras pessoas que convivem com a doença.
A descoberta aconteceu quando os pais o levaram para receber vacinas antes de uma viagem à Tailândia e à Europa. O que deveria ser uma consulta de rotina acabou levando a novos atendimentos médicos, até que os exames identificaram a infecção pelo vírus da hepatite B.
Na época, a mãe de Supa também desconhecia que tinha a doença. Somente depois do diagnóstico do menino os demais familiares passaram por testes. Como ele não apresentava alterações físicas, a notícia surpreendeu a família. “Meus pais ficaram chocados. Quando você é tão novo, não entende o que é uma doença crônica, e ninguém realmente me explicou. Minha mãe também não sabia que tinha hepatite B. Foi só depois do meu diagnóstico que o restante da família fez os exames”, relatou.
A hepatite B é uma infecção viral que afeta o fígado e pode ser transmitida pelo contato com sangue e determinados fluidos corporais, além da transmissão da mãe para o bebê durante o nascimento. Embora muitas pessoas não apresentem sintomas, a infecção crônica pode provocar complicações como cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado.
Segundo os dados apresentados na reportagem, estima-se que mais de 260 mil pessoas vivam com hepatite B na Inglaterra. Em adultos, a infecção aguda frequentemente é eliminada pelo próprio organismo, mas a transmissão no nascimento apresenta maior probabilidade de evoluir para uma condição crônica.
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Durante a infância, Supa precisava comparecer ao King’s College Hospital a cada seis meses para realizar exames de sangue e acompanhar a saúde do fígado. Apesar das consultas frequentes, ele não sentia nenhum sintoma e demorou a compreender o significado do diagnóstico.
Com o passar dos anos, entretanto, começou a desenvolver preocupações sobre o futuro. Ao descobrir que a hepatite B poderia causar complicações graves, passou a acreditar que teria uma expectativa de vida menor do que a de outras pessoas. “Eu simplesmente presumi que não teria o mesmo futuro que todo mundo. Achava que tinha algum tipo de prazo de validade”, contou.
A falta de informações também contribuiu para que ele se sentisse isolado. Supa relatou que chegou a acreditar que sua presença poderia representar um risco para outras pessoas, embora a hepatite B não seja transmitida pelo convívio cotidiano, como abraços ou compartilhamento de ambientes. “Eu sentia que não podia ficar perto de outras pessoas, que eu era perigoso. É bastante mórbido quando você é adolescente e acha que vai morrer jovem, então acaba fazendo tudo o que pode”, afirmou.
Um dos episódios que marcaram sua infância aconteceu durante uma ida à piscina com um primo. Ao apresentar um sangramento no nariz, Supa percebeu que o familiar saiu imediatamente da água por medo de contrair a infecção. “Meu primo saiu da piscina imediatamente. Ele disse: ‘Não quero pegar o que você tem’, e isso me machucou”, relembrou.
Aos 15 anos, durante a transição do atendimento pediátrico para os serviços destinados a adultos, Supa deixou de realizar o acompanhamento médico regular. Ele passou aproximadamente três anos sem consultar um especialista.
O retorno aconteceu quando estava na universidade e decidiu participar de um projeto voluntário em Honduras. Ao procurar atendimento para receber as vacinas necessárias à viagem, contou ao médico que não acompanhava a hepatite B havia anos. Em aproximadamente um mês, foi encaminhado a um especialista em fígado e voltou a realizar avaliações semestrais.
Diferentemente do que imaginava, Supa recebeu orientações sobre como controlar a doença e manter uma rotina normal. A conversa mudou sua percepção sobre o diagnóstico. “Em outra realidade, talvez eu nunca tivesse voltado. Se tivesse continuado ignorando isso, minha vida poderia ser completamente diferente hoje. Mas, depois daquela conversa, comecei a acreditar que realmente poderia ter uma vida normal”, afirmou.
Aos 25 anos, os exames de acompanhamento identificaram um aumento significativo da carga viral, indicando maior risco de danos ao fígado. Diante do resultado, os médicos recomendaram o início de um tratamento diário com antivirais, que ele precisaria manter por tempo indeterminado. “Desde os oito anos, era simplesmente algo que eu tinha. Então, de repente, minha carga viral disparou e aquilo se tornou real”, contou.
O início do tratamento representou um período de adaptação. Supa decidiu interromper o consumo de bebidas alcoólicas por um ano e passou a dedicar mais atenção aos cuidados com a saúde. Nesse processo, encontrou apoio na própria mãe, que já utilizava a mesma medicação havia anos. “Ela é cabeleireira, está sempre conversando com as pessoas. A hepatite B não define a vida dela. Lembro de pensar: ‘Se minha mãe consegue ser feliz tomando esse medicamento, eu também consigo’”, relatou.
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Além das preocupações médicas, ele enfrentou dificuldades em relacionamentos amorosos. Segundo Supa, algumas pessoas se afastavam quando descobriam que a hepatite B também pode ser transmitida sexualmente, sem procurar compreender sua condição. “Quando as pessoas ouviam hepatite B e descobriam que também era uma infecção sexualmente transmissível, nem me davam a oportunidade de explicar. Você realmente se sente deixado de lado e rejeitado”, afirmou.
Em 2020, ele conheceu a mulher com quem se casaria. Supa contou que ela procurou informações sobre a doença e ouviu suas experiências antes de tirar conclusões, atitude que contribuiu para que ele se sentisse mais acolhido.
Atualmente, o britânico toma um comprimido por dia, mantém uma rotina ativa e continua realizando exames a cada seis meses. Formado em Ciências Biomédicas e atuando na área de pesquisa de mercado farmacêutico, decidiu utilizar sua experiência para ajudar outras pessoas com hepatite B.
Em março de 2024, criou a organização beneficente Hep B Companion, dedicada a oferecer informações e apoio a pessoas diagnosticadas com a infecção. A iniciativa é conduzida por voluntários, muitos dos quais também convivem com a doença.
O projeto reúne aproximadamente 50 participantes em um grupo de WhatsApp e distribui um boletim mensal para quase 300 pessoas. Nos espaços de conversa, os integrantes compartilham dúvidas sobre tratamento, relacionamentos, filhos e resultados de exames. “Muitas pessoas entram em contato conosco fazendo perguntas que tiveram medo de fazer a qualquer outra pessoa. Perguntas como se podem namorar ou ter filhos. Eu posso dizer: ‘Já passei por isso. Vivi isso. Você vai ficar bem’”, explicou.
Para Supa, a possibilidade de conversar abertamente sobre a hepatite B e oferecer apoio a outras pessoas se tornou uma das principais mudanças provocadas por sua experiência com a doença. “A hepatite B tem sido minha amizade tóxica mais longa, que caminhou ao meu lado durante toda a minha vida. Sim, ela não faz bem ao meu fígado, mas me incentivou a fazer mais com a minha vida. Gostaria de nunca ter tido a doença. Mas, se não tivesse, não acho que teria me tornado a pessoa que sou hoje”, concluiu.













